{"id":1170,"date":"2013-01-31T15:21:52","date_gmt":"2013-01-31T18:21:52","guid":{"rendered":"https:\/\/za.mus.br\/?p=1170"},"modified":"2013-01-31T15:21:52","modified_gmt":"2013-01-31T18:21:52","slug":"supernova-prosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/za.mus.br\/en\/supernova-prosa\/","title":{"rendered":"Supernova (prosa)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><em><a href=\"https:\/\/za.mus.br\/user\/view\/1138\" target=\"_blank\">Igor Bacelar<\/a>, guitarrista da banda <a href=\"https:\/\/za.mus.br\/artist\/view\/237\" target=\"_blank\">L\u00eamures<\/a>, apresenta um conto seu que foi musicado pela banda para um quadro que apresentavam em uma r\u00e1dio web.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/za.mus.br\/wp-content\/uploads\/lemures.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1171\" title=\"lemures\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/za.mus.br\/wp-content\/uploads\/lemures.jpg?resize=246%2C300&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"246\" height=\"300\" \/><\/a>Era um dia agrad\u00e1vel de uma esta\u00e7\u00e3o primaveril. Um belo casal passeava por colinas raramente visitadas em dias que n\u00e3o fossem s\u00e1bados ou domingos. Nessa \u00e9poca, todas as flores desabrochavam e o c\u00e9u despertava com um tom r\u00f3seo delicado todas as manh\u00e3s. Era um vasto jardim semeado por p\u00e1ssaros e pequenos insetos, cortado por pequenos c\u00f3rregos e habitado por lebres acanhadas e quase invis\u00edveis. Vinham ali com certa frequ\u00eancia para repousar o esp\u00edrito e silenciar o alvoro\u00e7o das frivolidades cotidianas. Costumavam fazer amor e n\u00e3o dizer nada por longos per\u00edodos, apenas se abra\u00e7avam e entretinham os seus ouvidos com o chacoalhar da relva provocado por ventos brandos, a carne acariciada no \u00e2mago por suas peles nuas cheirando levemente a suor mesclado com p\u00f3len e terra \u00famida.<\/p>\n<p>Presenciaram por incont\u00e1veis noites o c\u00e9u se encher de estrelas e ocasionalmente algumas delas se atirarem sem aviso, de um lado para o outro, rompendo o seu piscar let\u00e1rgico. E pensar que todo aquele c\u00e9u, coalhado de estrelas, \u00e9 apenas um reflexo de uma \u00e9poca que n\u00e3o mais existe. Um reflexo do passado composto por estrelas mortas. Nossos olhos encaram um gigantesco e maravilhoso universo com lentes ing\u00eanuas e imprecisas e ainda assim nos admiramos, ainda assim nos \u00e9 imensamente belo. Geralmente eles apontavam para aquela vastid\u00e3o misteriosa e sorriam, \u00e1s vezes choravam. De alguma forma esse estado de paix\u00e3o e amor intenso os aproximava de um esp\u00edrito comum a todos os seres sens\u00edveis, os aproximava daquele segredo miraculoso que nos fascina tanto quanto as serpentes que s\u00e3o encantadas por domadores do oriente, seduzidas por um ritmo freq\u00fcente e irrecus\u00e1vel. Hipnotizados por uma pergunta sem resposta ou resposta sem pergunta, pelas quest\u00f5es essenciais desse processo todo.<\/p>\n<p>Imagine-se sentado em um assento de um teatro lotado onde os cen\u00e1rios s\u00e3o o palco indefin\u00edvel e negro das vastid\u00f5es do universo e o elenco as estrelas que enfeitam e d\u00e3o vida e sentido ao vazio ou o contr\u00e1rio ou nada disso. Voc\u00ea, como espectador, define a pe\u00e7a que se desenrolar\u00e1? Ela acontece para voc\u00ea ou voc\u00ea que acontece para a pe\u00e7a? Certamente n\u00e3o faria muito sentido uma trupe se apresentar para ningu\u00e9m, claro que n\u00e3o da mesma forma que se voc\u00ea fosse ao teatro para assistir a nenhum espet\u00e1culo. Mas, no momento que todos esses elementos est\u00e3o no palco, na plat\u00e9ia, no presente e exato momento desse acontecimento, algu\u00e9m poderia me dizer se h\u00e1 como discernir a import\u00e2ncia de cada elemento daquele fato no espa\u00e7o-tempo? A participa\u00e7\u00e3o de cada um \u00e9 \u00f3bvia e clara. Mas, por mais que um brilhe mais do que o outro, por mais que um seja \u201cmera\u201d cria\u00e7\u00e3o inorg\u00e2nica da criatividade do artista em papel\u00e3o e papel crepom, por mais que um d\u00ea palpites inoportunos sobre a performance de fulano e sicrano, s\u00f3 h\u00e1 um \u00fanico e complexo organismo chamado \u201cespet\u00e1culo gratuito para incentivo \u00e0 cultura\u201d ou qualquer outra alcunha. Quando olha para o c\u00e9u estrelado n\u00e3o consegue ver nada disso al\u00e9m de um ponto luminoso e desconhecido na escurid\u00e3o pontilhada. Para o casal de amantes nada disso acontecia em seus devaneios mudos, era tudo um profundo e inescrut\u00e1vel oceano onde o belo se apresentava em seu aspecto mais extremo e divino.<\/p>\n<p>Certo dia, tudo acabou. Encaminhou-se ao necrot\u00e9rio completamente chocado e aflito. Saiu cambaleante e catat\u00f4nico, em frangalhos. Reconhecera o corpo que para outros era irreconhec\u00edvel. Verificou uma verruga em suas partes \u00edntimas, praguejou para si mesmo de que n\u00e3o encontraria nada de familiar naquele cad\u00e1ver que de nada tinha em comum com a mulher que ele devotou os seus dias mais felizes de uma breve e agora penosa vida. A fam\u00edlia se encarregou de lev\u00e1-lo e resolver os assuntos burocr\u00e1ticos daquela trag\u00e9dia fat\u00eddica. O homem n\u00e3o fazia id\u00e9ia para onde ir, o que fazer, o que falar (se \u00e9 que se fala algo em um momento como esses), e por pouco n\u00e3o sabia mais como respirar com os pulm\u00f5es que ele convive desde que nasceu. Nada fazia sentido algum, nem o sentido fazia mais sentido. O homem foi consumido por um buraco existencial que se alojou em seu pequeno ser, por vezes t\u00e3o grande. N\u00e3o derramou nenhuma gota de l\u00e1grima nesse dia.<\/p>\n<p>No dia do vel\u00f3rio o caix\u00e3o estava lacrado e ele n\u00e3o suportaria ver aquele ser deformado uma vez mais. As pessoas vinham e iam com votos de condol\u00eancias, oras vazios, oras realmente deprimidos, mas eram invariavelmente as mesmas palavras. Palavras, que nesses dias permaneceriam em desuso quase religioso por parte do pobre rapaz. Ele estava transtornado, mas n\u00e3o havia l\u00e1grima, n\u00e3o havia sequer express\u00e3o, frio e calmo como m\u00e1rmore. Isso incomodava as pessoas de alguma forma, mas ningu\u00e9m ousava dizer algo sobre o assunto. As reprova\u00e7\u00f5es eram subliminares, mas estavam l\u00e1. Tinham medo do sil\u00eancio, pois estavam habituados demais aos sinais e signos, \u00e0s provas do crime e do pecado, provas de amor. Ele, o rapaz, fez quest\u00e3o de cavar a cova e enterrar aquele lembrete vil, confinado por uma urna de madeira maci\u00e7a, de sua bela amada que morrera dolorosamente por m\u00e3os assassinas. O que restara daquela carca\u00e7a em decomposi\u00e7\u00e3o eram apenas vivas e dolorosas mem\u00f3rias. Foi s\u00f3, para casa.<\/p>\n<p>Desde o dia do enterro, acordava no meio da noite e dormia muito mal, aterrorizado por pesadelos torpes de um mundo subterr\u00e2neo onde o dia n\u00e3o possu\u00eda sol e nem a noite tinha uma lua para dar gra\u00e7a \u00e0queles que vagam sob a sua prote\u00e7\u00e3o. Abutres, corvos e morcegos compunham a fauna do alto das florestas e cidades, e nas vielas estreitas os ratos dominavam como reis devassos. As pessoas se esgueiravam por becos sorrateiramente e tinham a pele grudada em seus ossos. Eram como defuntos que n\u00e3o querem ser descobertos pela profana\u00e7\u00e3o de sua teimosia em n\u00e3o trilhar o caminho da morte. Certo dia, ela estava l\u00e1, \u201cvoc\u00ea me acha suja\u201d? O pobre rapaz era atormentado incessantemente por essas vis\u00f5es durante o seu sono e ele j\u00e1 n\u00e3o mais tinha for\u00e7as para sair de casa ou se relacionar com as pessoas, tamanha a intensidade dos pesadelos. Os pesadelos se utilizavam sagazmente dos seus medos e nojos, de cada cor que o fazia sentir-se desconfort\u00e1vel, monstros repugnantes, epis\u00f3dios obscenos e a sua amada aparecia cada vez com mais freq\u00fc\u00eancia. Um dia, uma id\u00e9ia se apossou de sua cabe\u00e7a. Em um sonho essa tal id\u00e9ia at\u00e9 o fez literalmente. Devo admitir que fora uma cena interessante, at\u00e9 engra\u00e7ada, apesar dos berros de pavor &#8211; desculpem-me pela interven\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1ria.<\/p>\n<p>O jovem estava diante da l\u00e1pide sobre o local onde havia sepultado o ata\u00fade onde se encontrava a sua jovem esposa. Cavou incansavelmente em dire\u00e7\u00e3o ao seu corpo que j\u00e1 deveria estar p\u00fatrido e sendo por sua vez devorado por vermes decr\u00e9pitos. A cova parecia n\u00e3o ter fim e ele cavou, e cavou, e cavou, e cavou rumo ao abismo, ao outro lado, aos dom\u00ednios daqueles que n\u00e3o mais sentem os prazeres da vida. L\u00e1 estava a cidadela dos seus pesadelos, adornada por g\u00e1rgulas em seus sujos edif\u00edcios antigos cheios de limo. Era noite, mas n\u00e3o havia lua ou estrelas assim como em suas visitas anteriores durante o seu sono. Uma n\u00e9voa densa, quase s\u00f3lida, habitava toda a extens\u00e3o daquelas constru\u00e7\u00f5es g\u00f3ticas e abandonadas. Vez ou outra via-se um morto-vivo perambulando indiferente e desinteressado, entrando e saindo por portas ruidosas de madeira velha. Os abutres estavam \u00e0 espreita, no topo de torres de concreto e telhados esburacados. Enquanto caminhava, o rapaz avistou um velho sentado em um banco de pra\u00e7a jogando comida aos corvos como se fossem pombos. Eram dedos humanos que jogava como se fosse alpiste. Depois de muito tempo sem pronunciar alguma palavra, o rapaz achou conveniente indagar em voz alta o seu recente estado de confus\u00e3o para o seu \u201canfitri\u00e3o (?) por necessidade\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; O que faz aqui? \u2013 perguntou hesitante, o jovem.<\/p>\n<p>-No momento, estou alimentando os passarinhos \u2013 respondeu pregui\u00e7osamente, o velho.<\/p>\n<p>-Onde estamos?<\/p>\n<p>-N\u00e3o sei exatamente que lugar \u00e9 esse. H\u00e1 muitos anos eu vim parar aqui, minhas costas nem eram encurvadas e meus cabelos nem amea\u00e7avam ficar grisalhos.<\/p>\n<p>-Uma coisa eu tenho convic\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estamos mortos, estamos? Ou sonhando? Isso \u00e9 real.<\/p>\n<p>-Voc\u00ea \u00e9 o primeiro como eu que vejo em anos. As \u00fanicas coisas que respiram por aqui s\u00e3o os p\u00e1ssaros carniceiros e roedores. A princ\u00edpio eu n\u00e3o simpatizava muito com eles. O segredo \u00e9 ver pombos no lugar de corvos e pre\u00e1s no lugar de ratos.<\/p>\n<p>-Por que est\u00e1 aqui?<\/p>\n<p>-Nem me recordo mais o que houve e quase nada do que deixei ou foi-me deixado pra tr\u00e1s.<\/p>\n<p>-Muito antes de vir a esse lugar, tudo o que havia em minha vida fora arremessado para tr\u00e1s, para longe de mim, como um saco pesado de batatas podres.<\/p>\n<p>-E voc\u00ea, por que veio parar aqui?<\/p>\n<p>-Talvez, recuperar o que me fora negado. Por que n\u00e3o? \u2013 disse com um entusiasmo incomum e lun\u00e1tico.<\/p>\n<p>Vagou como um desbravador pelas ruas l\u00edvidas daquele lugar, proibido para os que ainda sorviam da vitalidade, que possu\u00edam um cora\u00e7\u00e3o que distribu\u00eda sangue quente e corrente pelas veias. Se alimentava de ratos, morcegos, urubus e gralhas, bebia \u00e1gua suja de esgoto. Conforme penetrava cada vez mais em dire\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o daquela cidade intermin\u00e1vel, uma sensa\u00e7\u00e3o insistente de que algo \u00edntimo e familiar estava cada vez mais perto o motivava a seguir sempre naquela dire\u00e7\u00e3o como uma m\u00fasica que pode nos fazer recordar de cheiros, imagens, sensa\u00e7\u00f5es praticamente tang\u00edveis de nossas lembran\u00e7as mais recentes, ou lugares revisitados, que nos levam \u00e0s mais rec\u00f4nditas delas.<\/p>\n<p>Eis que l\u00e1 estava ela sentada \u00e0 beira de um mangue lamacento parecido com o que eles foram logo quando se conheceram. \u201cVoc\u00ea \u00e9 t\u00e3o suja quanto a lama que nos acalentou os poros em uma outra \u00e9poca h\u00e1 muito esquecida\u201d, disse em prantos. Era p\u00e1lida, e alva como uma pequena lua terrena em forma de mulher, a perda do calor de seu sangue em seus tecidos n\u00e3o fora suficiente para roubar-lhe a gra\u00e7a de seu corpo. Era t\u00e3o ou mais linda quanto fora em dias passados, quando havia estrelas palpitando no c\u00e9u. Pelo menos agora, nesse reflexo distorcido e macabro da vida, n\u00e3o havia espa\u00e7o para simulacros e ilus\u00f5es sobre suas cabe\u00e7as. Sem lud\u00edbrios. Apenas uma vala preenchida de trevas, o negrume absoluto da noite.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/w.soundcloud.com\/player\/?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F47058363\" frameborder=\"no\" scrolling=\"no\" width=\"100%\" height=\"166\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Igor Bacelar, guitarrista da banda L\u00eamures, apresenta um conto seu que foi musicado pela banda para um quadro que apresentavam em uma r\u00e1dio web.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1172,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[1648],"tags":[],"class_list":["post-1170","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-networking"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.6 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Supernova (prosa) - 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