Por João Arthur Batalha, vocalista e gaitista da banda Elefante

Os anos 60. Ah, os anos 60. Que década maravilhosa e prolífica. É verdade, o mundo atravessava um período de profundas mudanças. A Guerra Fria estava mais aquecida do que nunca. E diante da disputa bipolar voraz pelo poder em âmbito internacional, o Brasil conseguiu ser ainda mais criativo: ditadura militar.

Há um lado positivo nessa história toda, no entanto. Toda a pressão e repressão vigentes naquele momento, aliados a movimentos conservadores e puritanos, proporcionaram um cenário único para que os movimentos artísticos aflorassem como nunca observado da mesma forma durante toda a história da humanidade. A criatividade foi liberta, enquanto outras formas de expressão eram proibidas. E o mais importante, desta vez a a liberdade criativa se deu de maneira popular.

O meio artístico fervilhava, estava tudo conectado. As artes cênicas passavam por uma revolução. No cinema, surgiam grandes nomes e movimentos, como o Spaghetti Western, liderado pelo diretor Sergio Leone e música de Enio Morricone, que levaram Clint Eastwood ao estrelato. Nas artes plásticas, nomes como Andy Warhol despontavam a cada dia. Novas drogas, infelizmente, também estavam envolvidas em todo este processo, em especial o LSD. A maneira de se vestir também deixou a sua marca para sempre, assim como muitos hábitos que nasceram naquela época. Tudo isso alavancado pela ainda relativamente recente tecnologia da televisão.

Mas foi na música onde, de fato, observou-se a mais marcante dentre as revoluções culturais. Talvez a melhor expressão encontrada pela sociedade para confrontar poderes opressores e verdades absolutas.

No Brasil, foi possível observar a Bossa Nova, de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Carlos Lyra, João ilberto e tantos outros, se consolidar. Foi a era dos grandes Festivais da Canção, que propulsionaram a MPB, inserindo nomes como Edu Lobo, Chico Buarque, Sérgio Ricardo em nosso cotidiano. De Minas Gerais, veio Milton Nascimento, que mais tarde lideraria o movimento do Clube da Esquina. E ainda, no fim da década os Tropicalistas. Que maravilha eram os Tropicalistas; Nara Leão, Tom Zé, Gil e Caetano, sem esquecer o maestro Rogério Duprat, e Os Mutantes. Os últimos então, fundamentais: Duprat com as orquestrações inigualáveis peculiares ao movimento, e os Mutantes, que elevaram a Tropicália ao status de música internacional, quando adicionaram seu rock n’roll lisérgico à mistura. Ainda na área do rock n’ roll, Rauzito já dava seus primeiros passos.

E falando de música e rock n’ roll, é inevitável voltar as atenções para os EUA e Reino Unido. Na virada da década, o rock ainda estava agarrado na barra da saia de seus criadores dos anos 50, como era possível observar nos Beatles e Beach Boys. Os Rolling Stones começavam a se aventurar em águas mais profundas, explorando o Blues dos negros do Sul dos EUA.

A música negra viu a disputa acirrada entre as gravadoras Motown e Stax. A Motown criou um formato especial para seus artistas, com o objetivo de vender a música também para os brancos, através de artistas como Smokey Robinson e seus Miracles, Temptations, Martha and the Vandellas, The Supremes. Marvin Gaye e Stevie Wonder foram mais além, tinham mais liberdade. Já a Stax era mais fiel a suas origens, criando música sem pensar muito nos brancos. Lançaram nomes como Booker T. And the MG’s, Sam and Dave, o bluesman Albert King, Isaac Hayes.

No âmbito do folk, muitos nomes vieram,como Joan Baez, Simon and Garfunkel, James Taylor, Peter Paul and Mary, The Mamas and the Papas. Mas nenhum deles foi maior que Bob Dylan. Ele, que, ao subir no palco com uma banda e instrumentos elétricos, no auge de sua carreira como músico acústico, mudou para sempre os rumos da música popular no mundo ocidental.

No meio da década, quem ditou o ritmo foi o Reino Unido, com os mods do The Who e The Kinks, que engatilharam o movimento que viria a ser conhecido com British Invasion, quando muitas bandas britânicas literalmente invadiram o mercado fonográfico norte-americano. Entre elas The Animals e The Zombies.

Nos anos seguintes, em meio às disputas entre Rubber Soul, Pet Sounds e Sgt. Pepper’s, surgiam dois movimentos importantíssimos. 1967, grande ano, o primeiro dos grandes festivais aconteceu, Monterey, Califórnia. Além de Jim Morrison e os Doors, Janis Joplin acompanhada de seu Big Brother and the Holding Company e James Marshall Hendrix com seu Experience, surgia também o rock psicodélico. Movidos a muito ácido, nomes como Jefferson Airplane, Iron Butterfly, Country Joe and The Fish, 13th Floor Elevators, entre muitos outros, criaram um rock cheio de cor e imagens abstratas, deflagrando o Flower Power. O folk rock também explodia andando lado a lado com os hippies: The Byrds, Buffalo Springfield, The Band, Grateful Dead, só para destacar, contaram essa história.

Pelas voltas de 67 também surgia o rock progressivo, ainda embrionário. Os pais da criança: Pink Floyd de Syd Barrett, King Crimson de Robert Fripp e Greg Lake, o The Nice com todo o talento de Keith Emerson nos teclados, Crazy World of Arthur Brown do baterista Carl Palmer, e alguns outros pioneiros.

Enquanto o rei, Otis Redding, e a rainha, Aretha Franklin, do soul reinavam absolutos, com status de superstars, Eric Clapton desfilava imponente, com seus magníficos projetos, pela corte do cenário musical: o começo revolucionário com os Yardbirds, que fizeram a melhor fusão do rock com o blues; a união genial com o bluesman John Mayall e seus Bluesbreakers; a formação de super bandas com o Cream, ao lado de Ginger Baker e Jack Bruce, e o Blind Faith, novamente com Ginger e Stevie Winwood.

No terreno do blues, diversos bluesmen por um tempo esquecidos, foram trazidos de volta, e se juntaram a uma leva de novos músicos. Muddy Waters, Willie Dixon B. B. King, Howlin’ Wolf e Junior Wells estavam mais vivos do que nunca, e Buddy Guy, majestoso. Surgiam também os grandes bluesmen brancos, como o próprio Mayall, os gaitistas Paul Butterfield e Charlie Musselwhite, Johnny Winter, diretamente do Texas, entre muitos outros. Etta James alcançava alturas cada vez mais altas em sua carreira.

Ao fim da década, viu-se nascer ainda grandes movimentos musicais. Os Allman Brothers e Creedence Clearwater Revival lideraram a criação do Southern Rock, o rock de caipira. Os Yardbirds, depois da saída de Clapton, lançaram ainda o gênio de Jeff Beck, que depois viria a dar lugar a Jimmy Page; o resto da história é o Led Zeppelin, que juntamente com o Deep Purple, foram pioneiros do Hard Rock. E também inspirados em Clapton, outras superbandas se formaram, tal como Crosby, Stills, Nash & Young e Emerson, Lake & Palmer. Não podemos esquecer também de Al Kooper, cujo principal projeto foi o Blood Sweat & Tears, no meio de todos esses caras.

A música ocidental deu uma chance à música oriental, inserindo nomes como Ravi Shankar no cenário. E ainda a África foi lembrada. Enquanto Fela Kuti criava seu afrobeat, Miles Davis remetia às origens de sua raça, e lançava o alicerce definitivo para o fusion, quando uniu o rock ao jazz.

Diante de toda essa história, de alegria e celebração da vida através da arte, em especial, da música, pode-se dizer, com toda segurança: “Ah, como eu queria ter vivido essa época!” Mas é por isso, que, ainda hoje, é irresistível trazer os anos 60 de volta ao nosso dia a dia. Quase tudo que é puro e verdadeiro em termos de arte, é herança desta década fabulosa.

Por João Arthur Batalha, vocalista e gaitista da banda Elefante

Zamus, Educação e Tecnologia para o Novo Mercado da Música.

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