André da banda Samsarah viaja conosco num papo sobre a banda e suas influências. Identidade do rock, fadas e dragões.

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Zamus – Samsarah? O que isso tem a ver com o som de vocês, que é um rock pesado e cheio de energia?

André – Samsara é o estagio inicial de um espírito. Ele vai evoluir dali até alcançar a iluminação pura. É no estagio da samsara que se sente todos os prazeres e dores da vida. Tudo é real e sentido ao máximo. E com um “H” no final SamSarah vira uma boa banda de rock (risos)

Zamus – Então quer dizer que Samsarah é como a vida [Com seus estágios naturais] Nasce, cresce e morre, sente prazer, aprende e morre. É isso?

André – É! A Samsarah seria a realidade. É a nossa realidade. Não só pela música ou pela letra!

Zamus – Mas seria a nossa realidade ou seria a Matrix, pra você?

André – Olha, nesse disco eu cantei um pouco no meio dos dois. As letras ficam nesse limiar. Tem letras que eu falo sobre revolução e feminismo (Cupcake Paranoid, e Venus, por exemplo) e também têm músicas que são só baladas de amor, amores irreais. Tem coisas que falam sobre nada ou sobre tudo, simplesmente.
Tudo isso numa perspectiva de realidade – A gente não canta sobre fadas e dragões. Tudo muito voltado ao sentimento humano, das pessoas.

Zamus – Sobre fadas, dragões e realidade. Ter os pés no chão é importante? O Angra, por exemplo, está na idade média e falando pra pessoas que partilham do mesmo imaginário. Você tenta fugir disso?

André – O Angra é foda. Eu sou fã pra caralho deles. Não é o meu estilo de letras e tal. Eu gosto muito da letra de The Shadow Hunter, e eu acho que isso é real, é um tema atual, fala sobre religião e tudo mais. Eu não sei quais letras do Angra falam de dragões. Mas apesar de falarem sobre, eu acho alguns temas muito atuais.

Zamus – Ainda falando dos universos imaginários dentro da música! Há algum tempo um produtor musical, que produziu um disco do nirvana, alias, criticou a atitude de bandas brasileiras quererem cantar em inglês. Um critica bem negativa, alias. O que tu acha disso, já que vocês são uma dessas bandas?

André – Ah, foi o Jack Endino. Eu acho que desde que o Cansei de Ser Sexy se tornou uma puta banda, não existe mais esse negócio de: Banda brasileira tem que cantar em português. Eu acho que foi um comentário muito infeliz e idiota do Endino tanto que depois ele se retratou! Ele disse que falava sobre bandas que não sabiam o inglês, mas cantavam. A gente tem muito cuidado pra não cometer erros ao escrever as letras e tal. Além do mais eu acho que é arte, sabe? Não tem que ter regra, você faz o que você quiser.
E tem muito preconceito aqui no Brasil, pois o que tem mais no mundo a fora é banda cantando em inglês, exemplo: Nightwish, os caras são finlandeses, cantam em inglês e ninguém enche o saco deles lá. Cada um faz o que quer.
O nosso tipo de rock, eu acho que encaixa melhor no inglês! Tem bandas como, por exemplo, o Daniel e as Vadias e Rijat que cantam em português e eu acho muito bom.

Zamus – A música deve ser tratada como arte independente do que diga ou não? Mesmo que ela seja num inglês errado, se for boa musicalmente vale?

André – Sim, sim. Tem tanta musica em português que é letrada com perfeição, mas o contexto é uma bosta (Risos).

Zamus – Mas você não teme alguém te acusar de “um não ajudador da identidade do rock nacional”?

André – Eu acho que cantar em inglês hoje não é nada demais nem nada de menos. A informação tá aí, todo mundo tem acesso. O inglês não é mais elitizado como na época dos Mutantes e da Legião Urbana, por exemplo, que são divisores de águas no rock nacional.

Zamus – Esse assunto é extenso e ele tem centro direto no ponto da identidade nacional, da música no Brasil. Essas bandas (Os mutantes e a Legião) são divisores de águas e elas jogam na cultura elementos que são trabalhados por outros na busca da cara do Rock Nacional, alias, isso é uma luta nossa, não da Inglaterra por exemplo. A questão é: O que vocês fazem e que ajuda nessa construção?

André – Acho que isso é um grilo só nosso. Na Argentina, por exemplo, não deve ter. Acho que isso é coisa da gente mesmo, do Brasileiro. Acho que o Rock Brasileiro de verdade seria o rock com samba ou com ritmos nordestinos, sabe. Rock com identidade brasileira é aquilo que mistura elementos brasileiros, então. Não tem rock com cara de brasileiro! A gente tem que saber o que é a cara do Rock Brasileiro?

Zamus – Chegamos a apenas um consenso: O Brasil tem crise de identidade, diferente de muitos outros países, mas isso é decorrente de nossas misturas, nós não somos portugueses, por exemplo, na mesma medida que os argentinos são apenas espanhóis, entende?

André – Se houvesse um cidadão do mundo ele teria cara de Brasileiro. O Mayrton Bahia, que foi produtor da Legião Urbana e é meu professor também já me interpelou sobre a minha banda cantar em inglês. Eu fiz média pra responder. Mas eu não fico nessa! Nego não gosta de ouvir funk e samba em inglês. O Rock não é um produto daqui. Eu não ouço tango em mandarim (Risos). Se a cara do Rock Brasileiro for parecida com o Jota Quest, eu prefiro tirar uma cidadania Russa (Risos)

Zamus – E vocês ouvem música Russa ou ficam só no rock americano e nacional mesmo?

André – De bandas nacionais ouvimos muito Daniel e as Vadias, Rijat, Tchopu e Outs Outland que são independente. Do lado mais mainstreamtem o Soundgarden, Nirvana, Alice In Chains. Hole, Bikini Kill, Babes in Toyland, Kate Nash, Seether e muita coisa dos anos 70 [Pink Floyd, Queen, Mutantes e Led Zepplin] Nosso produtor Sergio Filho nos ajudou a capturar o som daquela época pro nosso disco, Stand In The Light Field. Agora tenho ouvido muita coisa dos post-punk dos anos 80. Joy Division, Smiths, New Order… acho que vai sair dai a influencia pro próximo disco.

Zamus – E essa temporalidade é latente pra você?

André – Apesar de ouvir muito rock 90, eu aprendi que tudo é revival de alguma coisa. Então, como os anos 90 são revival dos anos 70, os anos 10 são revival dos anos 90. Então eu diria que o nosso disco é datado de 1993.

Zamus – E sobre o tempo de vocês? Planos? Feitos?

André – Agora a gente vai se voltar pras composições do próximo disco. Queríamos tocar por vários lugares pra divulgar o material desse disco, mas a verba curta e a falta de interesse das pessoas em assistir ao vivo a cena underground fazem com que isso se torne um pouco complicado. Gostamos de tocar ao vivo, mas nos últimos shows os contratempos foram maiores que esse prazer, então vamos voltar pro estúdio, onde nos tivemos mais prazer nos últimos meses. Optamos agora por focar em gerar conteúdo musical pra web e tocar ao vivo mais esporadicamente. Vamos fazer um registro do Standing In The Light Field sendo tocado ao vivo num estúdio e vamos continuar a compor pro próximo que deve vir por ai no final do ano que vem.

 Por Márcio Maurício

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Zamus, Educação e Tecnologia para o Novo Mercado da Música.

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