História e transparência na cadeia produtiva da música

A história nos ensina que ainda nos dias atuais persiste, na grande maioria daqueles que pretende estabelecer uma carreira musical, a vontade de ter um contrato com uma grande gravadora.

É certo que um contrato com uma major significa status e um certo fluxo de trabalho, mas você já parou para pensar em como era a carreira artística antes da formalização de uma indústria do entretenimento e se de fato este status é imprescindível para o seu trabalho?

Primeiramente devo dizer que com a existência de plataformas digitais de streaming de áudio e vídeo e redes sociais, inúmeras formas e possibilidades de aplicações de marketing e publicidade, fundos de apoio a cultura, crowdfunding, financiamento privado e tantas outras inovações dentro do mercado da música, dá pra perceber que muito embora muito desejado um contrato não é a única solução para uma carreira artística producente e financeiramente viável. O filme Mesmo Se Nada Der Certo retrata muito bem esta realidade.

Todavia, porque ainda existe esta avidez?

Para entender o motivo deste cenário atual é necessário adotar um pensamento sistêmico de causa e efeito e analisar meticulosamente as transformações sociais causadas em decorrência da evolução da forma de se ouvir e consumir música.

Nas civilizações antigas a música já se apresentava como um importante fator de significação social e religiosa e esta impressão ainda encontra respaldo nos dias atuais. Para confirmar esta afirmação basta traçar um paralelo entre os movimentos musicais e os aspectos políticos/econômicos/religiosos no País. Desta abstração podemos verificar:

  • a existência da bossa nova como movimento de afirmação nacional frente a opressão cultural norte americana;
  • a tropicália e MPB como fator dissonante necessário de combate à política militar;
  • e o funk carioca como um grito social e intenso mostrando a força das minorias oprimidas das grandes cidades brasileiras.

Diante desta relevância social o primeiro grande marco para a consolidação de uma indústria da música foi a possibilidade de disponibilizar formas de disseminação da música e o primeiro passo foi através da escrita de partitura que possibilitou a transmissão de técnicas, traços e influências de compositores para outros músicos, além de fortalecer uma crescente ideia de autoria, separando-se a noção de intérprete e compositor.

Neste ponto histórico iniciou um processo onde já era possível obter lucro de negócios envolvendo música de forma diversa da apresentação e shows: venda de partituras.

O próximo passo expressivo para o desenvolvimento deste raciocínio foi a invenção de Thomas Edison que inspirado pela ideia de gravar de forma mecânica as vibrações sonoras, anunciou em 21 de novembro de 1877, o primeiro objeto capaz de gravar sons e reproduzí-los: o Fonógrafo. Até então para se ouvir música era necessário a execução do instrumento musical por algum músico e com o fonógrafo abriu-se a possibilidade de se ouvir música sem ter a necessidade de aprender a tocar o instrumento ou contratar alguém para fazê-lo!

O fonógrafo foi indispensável para ascender a indústria da música, pois com a possibilidade de se gravar e reproduzir som surgiu a possibilidade de se comercializar os objetos gravados (fonogramas) e assim surgiu a indústria da música e a arte de lucrar com este novo negócio.

Perceba que antes da invenção do fonógrafo e da possibilidade de se comercializar música por uma grande indústria já havia negócios envolvendo a cultura musical, contudo, a política capitalista impressa nessa conjectura onde eram poucos os habilitados para promover o processo de gravação de som e outros poucos responsáveis pela comercialização do fonograma inaugurou o sentimento de dependência deste novo negócio nos artistas o que fomentou uma política pouco transparente por parte das gravadoras.

Resumindo: a gravação de música inaugurou um novo formato de negócio baseado na sua enorme capacidade de disseminação cultural sustentado na necessidade de difusão de cada artista.

Desta forma, a indústria fonográfica se estabeleceu na preponderância de interesses daqueles capazes de gravar e comercializar músicas sobre aqueles interessados em fazer música. Esta política reforçou o processo de coisificação da música cujo intuito de lucro prepondera sobre a responsabilidade social de fomento à cultura e onde é mais intensa a vontade de consumir música sobre o desejo de realizá-la.

Perceba que o modelo de negócio inaugurado (aproximadamente) em 1886 é o mesmo ainda utilizado nos dias atuais onde há ainda preponderância dos critérios financeiros sobre os artísticos e ainda prevalece nas mãos de poucos a capacidade de comercialização e gravação de fonogramas. É justamente por este motivo que ainda prepondera o sonho, em muitos artistas, de ter um contrato com uma grande gravadora e ter este ideal como única forma de solidez na carreira.

É evidente que as coisas mudaram um pouco dos tempos do Cadillac Records. Com o advento da internet e de novas tecnologias houve a abertura de um cenário propício para novos negócios e formatos diferentes do jeito de se fazer e consumir música, todavia, o jeito adotado baseado no DO IT YOURSELF promovido por muitos artistas onde o foco é baseado numa tentativa de se estabelecer a carreira de forma independente das grandes coorporações ainda não encontra robustez necessária para fazer frente à forma preponderante.

Existe, lógico, uma nova ordem baseada na tímida retomada da preponderância do aspecto artístico e na rejeição ao modelo antigo de submissão, entretanto, ainda predomina na cadeia produtiva da música uma certa confusão sobre como traçar os novos modelos de negócios, sobre como serão os termos e sobre quando preponderá a responsabilidade cultural sobre a busca incessante pelo lucro.

Esta realidade ainda se faz existente por conta da falta de transparência nas atuações das grandes coorporações no mundo da música e na ainda crescente dominação dos meios de produção e na opressão de negócios que tentam inovar no sentido de buscar um ajuste igualitário entre artistas e empresas baseada na clareza de condutas, de direitos e deveres e no incentivo, auxílio e informação direta e cristalina ao artista.

Concluindo, a história nos informa sobre a relevância social da música e a crescente mutação da forma de utilizá-la como negócio; nos mostra a existência de preponderância de interesses e o intenso desejo de isonomia e transparência no processo criativo; nos fornece condições de análise para inovarmos em condutas empreendedoras e nos alerta para a existência de um modelo que pode ser superado.

Então… você está pronto para fazer parte de mais uma mudança histórica no cenário musical?

 

Tags:

Zamus, Educação e Tecnologia para o Novo Mercado da Música.

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