Autores x Streaming

Uma das coisas mais intrigantes que ficou clara para mim após a leitura do relatório de transparência do Rethink Music, e da preparação da minha palestra na Rio Music Buzz sobre o assunto, é a dicotomia Autores x Streaming.

Durante este ano, vi muitas reclamações sobre os valores destinados aos artistas pagos pelas plataformas de streaming aos autores que muitos consideram como verdadeira esmola, contudo, o que vem sendo demonstrado é que eles repassam 70% de tudo que entra para os intermediários (agregadores, selos, editoras e quem mais tiver contrato direto com eles) e retêm 30% menos impostos. Assim, como sempre foi no iTunes.

Assim, se de um lado, as plataformas de streaming que estão à mercê das Majors, acabam por operar no vermelho e viver apenas de investimentos, pois nenhuma plataforma até a presente data conseguiu obter lucro. Pelo contrário, a Deezer foi fazer um IPO e desistiu por falta de interessados quando os livros foram abertos, Pandora anunciou que iria comprar a Rdio por $75 milhões e desistiram no dia em que viram que havia um rombo de $220 milhões.

E do outro, artistas com milhões de plays recebendo muito pouco e também não conseguindo sobreviver com o valor arrecadado.

A verdade é que diversos fatores amarram as plataformas a manterem seus modelos de negócios como estão, continuando a privilegiar os artistas mais famosos. Algumas das imposições estratégicas existentes e citadas no relatório do Rethink Music e feitas pelas Majors são:

  • Adiantamentos financeiro pela liberação do catálogo e, consequentemente, caixa-preta;
  • Às vezes, pagamentos por serviços de catálogo;
  • Define seu preço e geralmente, vira sócia da plataforma;
  • Define um valor para o streaming do seu catálogo;

Para acrescentar, o modelo de divisão do dinheiro arrecadado com as assinaturas DEVE ser pró-rata, ao invés de um modelo teoricamente mais justo como o user-centric, e indicado na matéria do Music Ally: O que o modelo de pagamento voltado ao usuário significa para os artistas? .

Ou seja, se você quiser criar um serviço de streaming que contenha o catálogo das Majors, você precisará de mais ou menos $120 milhões de dólares só em adiantamentos. Isso, levando como base o contrato da Sony com o Spotify que vazou em Maio de 2015 e firmava que o serviço deveria pagar $42 milhões em 3 anos como “expectativa de uso” do catálogo.

Isso não é desculpa, afinal, escolheram como estratégia “ter todas as músicas do mundo” e isso implica em fazer acordos com as Majors.

De qualquer forma, esse vazamento parece a forma que o Spotify encontrou de jogar a batata quente para o colo das Majors, especificamente, da Sony Music. Daí, surge a questão da tão falada caixa-preta, que nada mais é um dinheiro que entrou e que não têm identificação de uso. Ou seja, não há para quem pagar e é dividido entre os sócios.

Depois, temos que analisar os contratos que estes artistas possuem com as gravadoras. Geralmente, o mesmo contrato que foi feito para um lançamento físico está valendo para o digital, o que é um erro. O contrato digital deve ser outro e levar em consideração apenas os custos relacionados ao mesmo. Tirando custos de produção, do lançamento físico, de transporte e um monte de outros, melhora um pouco a distribuição. Por isso, sempre frisamos aqui: músicos, vocês precisam gostar de contratos.

Os contratos tinham aquelas letrinhas: “válidos em todos os meios possíveis, que vierem a ser inventados etc.”. Isso caducou. Não em termos jurídicos, mas em termos morais e éticos. Jards Macalé, O Globo 

Beleza, isso acontece com os artistas que possuem contratos com gravadoras ou selos, e com os independentes? Os independentes precisam utilizar agregadores musicais para colocar suas músicas nas plataformas de streaming. Se ainda não o fez, saiba como aqui.

Agregadores Musicais são empresas privadas que possuem contratos com as plataformas de streaming para representar artistas e seus fonogramas dentro das mesmas. Cada um tem seu próprio contrato, com premissas e valores diferentes, que jamais saberemos.

Por isso, mesmo que um Agregador Musical dê 100% dos royalties para você, quanto será que ele recebe por stream?

Será que no outro agregador, mesmo ficando com 10%, vou ganhar mais?

Essas são perguntas que só podem ser respondidas através de experimentação árdua para uma comparação que realmente tenha validade, já que será difícil termos acesso a estes dados.

O que quero colocar, é que os artistas que reclamam dos pagamentos estão no final da corrente de pagamentos, ou seja, recebem taxa em cima de taxa dependendo do número de intermediários com seus contratos inacessíveis.

Uma forma de melhorar que cada um tivesse sua parte definida e dividida diretamente do montante pago pelo serviço digital e não, através de uma cadeia de intermediários, seja ela qual for.

Outros pontos de vista? Agreguem!

 

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Zamus, Educação e Tecnologia para o Novo Mercado da Música.

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