Igor Bacelar, guitarrista da banda Lêmures, apresenta um conto seu que foi musicado pela banda para um quadro que apresentavam em uma rádio web.

Era um dia agradável de uma estação primaveril. Um belo casal passeava por colinas raramente visitadas em dias que não fossem sábados ou domingos. Nessa época, todas as flores desabrochavam e o céu despertava com um tom róseo delicado todas as manhãs. Era um vasto jardim semeado por pássaros e pequenos insetos, cortado por pequenos córregos e habitado por lebres acanhadas e quase invisíveis. Vinham ali com certa frequência para repousar o espírito e silenciar o alvoroço das frivolidades cotidianas. Costumavam fazer amor e não dizer nada por longos períodos, apenas se abraçavam e entretinham os seus ouvidos com o chacoalhar da relva provocado por ventos brandos, a carne acariciada no âmago por suas peles nuas cheirando levemente a suor mesclado com pólen e terra úmida.

Presenciaram por incontáveis noites o céu se encher de estrelas e ocasionalmente algumas delas se atirarem sem aviso, de um lado para o outro, rompendo o seu piscar letárgico. E pensar que todo aquele céu, coalhado de estrelas, é apenas um reflexo de uma época que não mais existe. Um reflexo do passado composto por estrelas mortas. Nossos olhos encaram um gigantesco e maravilhoso universo com lentes ingênuas e imprecisas e ainda assim nos admiramos, ainda assim nos é imensamente belo. Geralmente eles apontavam para aquela vastidão misteriosa e sorriam, ás vezes choravam. De alguma forma esse estado de paixão e amor intenso os aproximava de um espírito comum a todos os seres sensíveis, os aproximava daquele segredo miraculoso que nos fascina tanto quanto as serpentes que são encantadas por domadores do oriente, seduzidas por um ritmo freqüente e irrecusável. Hipnotizados por uma pergunta sem resposta ou resposta sem pergunta, pelas questões essenciais desse processo todo.

Imagine-se sentado em um assento de um teatro lotado onde os cenários são o palco indefinível e negro das vastidões do universo e o elenco as estrelas que enfeitam e dão vida e sentido ao vazio ou o contrário ou nada disso. Você, como espectador, define a peça que se desenrolará? Ela acontece para você ou você que acontece para a peça? Certamente não faria muito sentido uma trupe se apresentar para ninguém, claro que não da mesma forma que se você fosse ao teatro para assistir a nenhum espetáculo. Mas, no momento que todos esses elementos estão no palco, na platéia, no presente e exato momento desse acontecimento, alguém poderia me dizer se há como discernir a importância de cada elemento daquele fato no espaço-tempo? A participação de cada um é óbvia e clara. Mas, por mais que um brilhe mais do que o outro, por mais que um seja “mera” criação inorgânica da criatividade do artista em papelão e papel crepom, por mais que um dê palpites inoportunos sobre a performance de fulano e sicrano, só há um único e complexo organismo chamado “espetáculo gratuito para incentivo à cultura” ou qualquer outra alcunha. Quando olha para o céu estrelado não consegue ver nada disso além de um ponto luminoso e desconhecido na escuridão pontilhada. Para o casal de amantes nada disso acontecia em seus devaneios mudos, era tudo um profundo e inescrutável oceano onde o belo se apresentava em seu aspecto mais extremo e divino.

Certo dia, tudo acabou. Encaminhou-se ao necrotério completamente chocado e aflito. Saiu cambaleante e catatônico, em frangalhos. Reconhecera o corpo que para outros era irreconhecível. Verificou uma verruga em suas partes íntimas, praguejou para si mesmo de que não encontraria nada de familiar naquele cadáver que de nada tinha em comum com a mulher que ele devotou os seus dias mais felizes de uma breve e agora penosa vida. A família se encarregou de levá-lo e resolver os assuntos burocráticos daquela tragédia fatídica. O homem não fazia idéia para onde ir, o que fazer, o que falar (se é que se fala algo em um momento como esses), e por pouco não sabia mais como respirar com os pulmões que ele convive desde que nasceu. Nada fazia sentido algum, nem o sentido fazia mais sentido. O homem foi consumido por um buraco existencial que se alojou em seu pequeno ser, por vezes tão grande. Não derramou nenhuma gota de lágrima nesse dia.

No dia do velório o caixão estava lacrado e ele não suportaria ver aquele ser deformado uma vez mais. As pessoas vinham e iam com votos de condolências, oras vazios, oras realmente deprimidos, mas eram invariavelmente as mesmas palavras. Palavras, que nesses dias permaneceriam em desuso quase religioso por parte do pobre rapaz. Ele estava transtornado, mas não havia lágrima, não havia sequer expressão, frio e calmo como mármore. Isso incomodava as pessoas de alguma forma, mas ninguém ousava dizer algo sobre o assunto. As reprovações eram subliminares, mas estavam lá. Tinham medo do silêncio, pois estavam habituados demais aos sinais e signos, às provas do crime e do pecado, provas de amor. Ele, o rapaz, fez questão de cavar a cova e enterrar aquele lembrete vil, confinado por uma urna de madeira maciça, de sua bela amada que morrera dolorosamente por mãos assassinas. O que restara daquela carcaça em decomposição eram apenas vivas e dolorosas memórias. Foi só, para casa.

Desde o dia do enterro, acordava no meio da noite e dormia muito mal, aterrorizado por pesadelos torpes de um mundo subterrâneo onde o dia não possuía sol e nem a noite tinha uma lua para dar graça àqueles que vagam sob a sua proteção. Abutres, corvos e morcegos compunham a fauna do alto das florestas e cidades, e nas vielas estreitas os ratos dominavam como reis devassos. As pessoas se esgueiravam por becos sorrateiramente e tinham a pele grudada em seus ossos. Eram como defuntos que não querem ser descobertos pela profanação de sua teimosia em não trilhar o caminho da morte. Certo dia, ela estava lá, “você me acha suja”? O pobre rapaz era atormentado incessantemente por essas visões durante o seu sono e ele já não mais tinha forças para sair de casa ou se relacionar com as pessoas, tamanha a intensidade dos pesadelos. Os pesadelos se utilizavam sagazmente dos seus medos e nojos, de cada cor que o fazia sentir-se desconfortável, monstros repugnantes, episódios obscenos e a sua amada aparecia cada vez com mais freqüência. Um dia, uma idéia se apossou de sua cabeça. Em um sonho essa tal idéia até o fez literalmente. Devo admitir que fora uma cena interessante, até engraçada, apesar dos berros de pavor – desculpem-me pela intervenção desnecessária.

O jovem estava diante da lápide sobre o local onde havia sepultado o ataúde onde se encontrava a sua jovem esposa. Cavou incansavelmente em direção ao seu corpo que já deveria estar pútrido e sendo por sua vez devorado por vermes decrépitos. A cova parecia não ter fim e ele cavou, e cavou, e cavou, e cavou rumo ao abismo, ao outro lado, aos domínios daqueles que não mais sentem os prazeres da vida. Lá estava a cidadela dos seus pesadelos, adornada por gárgulas em seus sujos edifícios antigos cheios de limo. Era noite, mas não havia lua ou estrelas assim como em suas visitas anteriores durante o seu sono. Uma névoa densa, quase sólida, habitava toda a extensão daquelas construções góticas e abandonadas. Vez ou outra via-se um morto-vivo perambulando indiferente e desinteressado, entrando e saindo por portas ruidosas de madeira velha. Os abutres estavam à espreita, no topo de torres de concreto e telhados esburacados. Enquanto caminhava, o rapaz avistou um velho sentado em um banco de praça jogando comida aos corvos como se fossem pombos. Eram dedos humanos que jogava como se fosse alpiste. Depois de muito tempo sem pronunciar alguma palavra, o rapaz achou conveniente indagar em voz alta o seu recente estado de confusão para o seu “anfitrião (?) por necessidade”.

– O que faz aqui? – perguntou hesitante, o jovem.

-No momento, estou alimentando os passarinhos – respondeu preguiçosamente, o velho.

-Onde estamos?

-Não sei exatamente que lugar é esse. Há muitos anos eu vim parar aqui, minhas costas nem eram encurvadas e meus cabelos nem ameaçavam ficar grisalhos.

-Uma coisa eu tenho convicção. Não estamos mortos, estamos? Ou sonhando? Isso é real.

-Você é o primeiro como eu que vejo em anos. As únicas coisas que respiram por aqui são os pássaros carniceiros e roedores. A princípio eu não simpatizava muito com eles. O segredo é ver pombos no lugar de corvos e preás no lugar de ratos.

-Por que está aqui?

-Nem me recordo mais o que houve e quase nada do que deixei ou foi-me deixado pra trás.

-Muito antes de vir a esse lugar, tudo o que havia em minha vida fora arremessado para trás, para longe de mim, como um saco pesado de batatas podres.

-E você, por que veio parar aqui?

-Talvez, recuperar o que me fora negado. Por que não? – disse com um entusiasmo incomum e lunático.

Vagou como um desbravador pelas ruas lívidas daquele lugar, proibido para os que ainda sorviam da vitalidade, que possuíam um coração que distribuía sangue quente e corrente pelas veias. Se alimentava de ratos, morcegos, urubus e gralhas, bebia água suja de esgoto. Conforme penetrava cada vez mais em direção do coração daquela cidade interminável, uma sensação insistente de que algo íntimo e familiar estava cada vez mais perto o motivava a seguir sempre naquela direção como uma música que pode nos fazer recordar de cheiros, imagens, sensações praticamente tangíveis de nossas lembranças mais recentes, ou lugares revisitados, que nos levam às mais recônditas delas.

Eis que lá estava ela sentada à beira de um mangue lamacento parecido com o que eles foram logo quando se conheceram. “Você é tão suja quanto a lama que nos acalentou os poros em uma outra época há muito esquecida”, disse em prantos. Era pálida, e alva como uma pequena lua terrena em forma de mulher, a perda do calor de seu sangue em seus tecidos não fora suficiente para roubar-lhe a graça de seu corpo. Era tão ou mais linda quanto fora em dias passados, quando havia estrelas palpitando no céu. Pelo menos agora, nesse reflexo distorcido e macabro da vida, não havia espaço para simulacros e ilusões sobre suas cabeças. Sem ludíbrios. Apenas uma vala preenchida de trevas, o negrume absoluto da noite.

 

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